«Na
Comarca de Guimarães, em tres legoas de distancia fica hum lugar, a que chamaõ
a Alagoa, do qual huma parte pertence ao Concelho de Monte Longo, & a outra
ao Concelho de Basto. Na parte que pertence a Monte Longo, se vé o Santuario de
Nossa Senhora das Neves, o qual ainda que está situado em hum terreno largo,
& espaçoso, fica o destrito de sua situaçaõ em lugar não só imminente ao
mais campo, & espessos, &muyto alta, & íngreme de subir. No inverno
no he este sitio muyto frio, & desabrido, pela muyta neve que alli cahe.
Mas nem huma, nem outra cousa diminue a grande devoção, que todos aquelles
povos circumvizinhos tem para com a milagrosa Imagem da Mãy de Deos, que
naquele monte he venerada. Intitula-se N. Senhora das Neves, ainda que alguns a
invoquem com o da Alagoa, por respeyto ao
lugar aonde pertence a sua Casa; a causa da fe lhe dar este titulo se ignora;
se ou foy nascido do lugar, pela muyta neve que nelle cahe em tempo de inverno,
se por se festejar em 5 de Agosto, dia em que se festeja a Senhora das Neves,
do milagre do Monte Esquilino, naõ consta.
He esta
Santa Imagem muyto antiga, causa porque de sua origem se naõ sabe nada com
certeza, assim do seu apparecimento, como da forma delle; mas a tradiçaõ, que
sempre tem muyta força conservada entre a gente daquellas partes, he que
apparecera em aquella mesma serra a huma innocente pstorinha, a qual guardando
algumas poucas ovelhas naquelle monte a descubrira, & dizem que em hum dia
de muyta neve, sobre huma arvore a que chamaõ naquellas partes Esqualeyro.
Alegre a pastorinha com o achado thesouro, tomou a Santa Imagem da Senhora,
& com a sua singeleza a meteo no cabaz, em que costumava recolher o paõ,
& as maçarocas. Com esta rica joya se recolheo a casa nuy alegre, &
chamava à sua Senhora a sua Santinha, & lhe hia fazendo muyta festa.
Naquella noyte sonhou que a Senhora lhe dizia, que no mesmo lugar em que a
descubrira, se lhe havia de fazer huma Casa, em que fosse venerada. Despertou
com este cuidado, & indo a buscar a Senhora ao cofre das suas joyas, que
era a cesta das suas maçarocas, a naõ achou, de que ficou sentidíssima. Para
alivio da sua saudade a foy buscar ao monte em seo costumado exercício, toda
sentida, & lacrymosa, de que se pagou muyto a Mãy de Deos; porque naõ só
pela sua Imagem, mas ella mesma se dignou de a consolar, dizedolhe, Naõ chores,
que cedo me verás todos os dias.
Isto he
o que referem os moradores daquelle lugar sobre o apparecimento da Senhora,
& naõ sabem dizer mais nada. Poderá bem ser, que a pastorinhareferisse o
successo, & que outras pessoas de mais capacidade, à vista de a Senhora
fugir, a fossem buscar curiosamente, a que tambem Deos as moveria, & a descubrissem com
algum final, ou se obrariaõ alguns milagres logo, motivo para que se
resolvessem a lhe fazer de empréstimo algua Ermidinha. Começou logo a maõ de
Deos a obrar tantos prodígios, que se animáraõ os seus devotos a lhe fazer
depois Casa mais grande, como se vé, que he hum Templo magestoso, & de
muyta capacidade; & como as maravilhas, & os milagres cesciaõ, assim se
augmentavaõ mais as esmolas, para que cada vez mais se ampliasse, &
adornasse aquella Casa da Senhora.
He esta
Imagem da Senhora das Neves muyto pequenina, porque naõ excede de hum palmo; he
de vulto, mas não se sabe a matéria de que he formada, parece de madeyra pelo
leve. Adornaõ-na com vestidos, & como he pequenina tem muytos, que lhe
offerece a devoçaõ dos que a buscaõ em seus trabalhos, & vendo-se
favorecidos, & remediados da sua liberdade, tambem em satisfaçaõ, &
agradecimento lhr dedicaõ alguma nova gala, & como a Senhora he taõ
pequenina, nunca será muyto grande a despeza della. O mesmo fazem ao Menino
JESUS, que tem em seus braços, & naõ sey se he separado da Senhora, se
unido na mesma escultura.
Está
collada em o Altar mor, por coroa, & remate de huma arvore dos Patriarchas,
& Reys seus ascendentes, que lhe serve de retabolo, & está debayxo de
um docel de seda curioso. Esta Igreja está muyto bem adornada; porque para tudo
servem as esmolas, que os devotos fieis offerecem à Senhora, que todas se
dispendem no augmento daquella Casa, & culto, & serviço da Senhora. O
author da Corografia Portugueza diz que ametade das esmolas as leva o Vigario
de Santa Maria de Aboim, & que o Vigario de Santa Maria de Varzea-cova leva
outra ametade. Tem esta Igreja dous dous Altares collateraes, hum delles he
dedicado a nossa Senhora do Rosario, & o outro a Santo Antonio. Tem coro,
& Capella mor. Está adornada de humas grades muyto bem feytas, & de
excellente madeyra; tem tambem uma grande alampada, que lhe offereceraõ huns
devotos, que vieraõ do Brasil. Defronte da Sacristia, cuja porta fica em hum
dos lados da Capella mor, se vé em um nicho, com proporcionada concavidade,
huma Imagem de vulto do Senhor com a Cruz às costas, Imagem tambem de muyta
devoçaõ.
São
administradores desta Casa, & das esmolas, que se offerecem à Senhora, os
Vigarios de Varzea-cova, cuja Vigayraria apresenta o Vigario do Outeiro de
Basto, & o Vigario de Aboim, annexa da Abbadia de Roças. Estes dous
Vigarios cuydaõ com muyto zelo do augmento daquella Casa, & do culto da
milagrosa Imagem da Senhora das Neves. Defronte da Igreja se vé hum fermoso
cruzeiro de pedra, o qual fica no pricipio do terreno, & em distancia de
1500 passos, & mais adiante ficaõ varias Cruzes, até chegar a outro
cruzeiro, que chamaõ o Miradouro; porque já deste se descobre toda a Igreja da
Senhora. Pelos lugares destas Cruzes continuaõ as procissoens, ou clamores
(como chamaõ naquellas partes) no tempo das romages, como Via Sacra. E isto se
faz com muyta devoçaõ, até entrar na presença da Senhora.
As
maravilhas, que obra Deos por intercessaõ de sua Santissima Mãy em este
Santuario, naõ tem numero, & assim he esta Casa muyto frequentada de todas
aquellas terras circumvizinhas de Braga, & Guimarães, principalmente no dia
5 de Agosto, em que se celebra a sua festa; porque neste dia he muyto grande o
concurso. E em todos os Sabbados do mez de Agosto, saõ muytas as Cruzes, &
as romagens, & no ultimo Sabbado se ajuntaõ muytas, que vem de varias
partes, & muytas legoas distantes. Obra muytos milagres, & prodígios.
Della faz mençaõ a Corografia Portugueza tom.1 liv. 1 cap.31.






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